Vitória da Conquista

Tragédia do Tamanduá: uma luta entre famílias no final do século XIX em Belo Campo

Cemitério do Tamanduá, situado na antiga fazenda do Coronel Domingos Ferraz, em Belo Campo (foto: Fernando Odilon)

A “Tragédia do Tamanduá”, como ficou conhecida na crônica sertaneja, ou “Guerra do Pau de Espinho”, foi uma luta entre famílias, tendo sido, inclusive, durante muito tempo, lembrada pelos poetas nordestinos e cantadores de Coco que sobre o assunto escreveram abecês e cantos romanceados. Também foi descrita pelo professor e poeta Euclydes Dantas no romance “A Cauã da Gameleira”, prefaciado por Camillo de Jesus Lima. Em 1901 Manoel Fernandes de Oliveira, o “Maneca Grosso”, genro do Coronel Domingos Ferraz, escreveu no dia 8 de setembro, um artigo intitulado “Conquista – os Pingos nos ii”, no Jornal de Notícias da Capital, falando da Tragédia do Tamanduá.

No ano de 1895 o Município de Conquista foi palco de uma luta entre as famílias do Coronel Domingos Ferraz de Araújo e da viúva Lourença de Oliveira Freitas, ambas aparentadas entre si. Lourença era filha de Luiz de Oliveira Freitas, irmão de Manoel de Oliveira Freitas (marido de Faustina Gonçalves da Costa). Manoel e Faustina eram pais de Tereza de Oliveira Freitas, esposa de Luiz Fernandes de Oliveira. Estes últimos eram pais de Joaquina Fernandes de Oliveira, esposa de Domingos, portanto, era bisneta do fundador de Conquista, João Gonçalves da Costa, e prima, em 2º grau, de Lourença. Segundo inventário do casal Domingos Ferraz e Joaquina Fernandes, datado de 1877 e encontrado no AFJM (Arquivo do Fórum João Mangabeira) seu Monte-Mor alcançava 40:504$350 (quarenta contos, quinhentos e quatro mil e trezentos e cinquenta reis), nele constando 27 fazendas, 3  mangas e 635 cabeças de gado.

O fato se deu na Fazenda Tamanduá, de propriedade daquele coronel, situada entre o povoado de Campo Formoso (na época conhecido como “Panela”) e a atual cidade de Belo Campo, outrora distrito de Conquista.

Fizeram-se sobre o assunto pesquisas minuciosas, para saber as causas da luta entre aquelas duas famílias, mas não se chegou ainda a nenhuma conclusão unânime. Tudo indica que fora por questões de limites das fazendas “Tamanduá” e “Pau de Espinho” (aquela pertencente a Domingos Ferraz e esta a Lourença de Oliveira). Um acontecimento fútil, qual seja a morte de uma vaca do coronel, que teria sido, possivelmente, morta pelos filhos de Lourença (Sérgio e Gasparino) pode ter sido a causa inicial.

O certo é que houve muitas brigas preliminares, nas quais tomou parte ativa Afonso Lopes Moitinho (o “Santo Lenho”, por propagar que tinha o “corpo fechado”), sobrinho e genro de Domingos Ferraz, que, por sua vez, era genro do Capitão Luiz Fernandes de Oliveira e, portanto, cunhado do Coronel Gugé, ambos chefes políticos da tradicional endogamia conquistense. Agredido pelos filhos da viúva, teria, tempo depois, já revestido de autoridade policial, matado, em ato tresloucado, Sérgio e Gasparino (29 e 28 anos de idade respectivamente), que se encontravam enfermos (com crise de malária, impaludismo adquirido em “Tabocas” – antiga Itabuna, para onde acorreram após a briga entre eles, conhecido na época como “febre das Tabocas”) e indefesos no interior da casa, alegando resistência à prisão, como teriam dito, cinicamente, os chacinadores. Moitinho, já no exercício do cargo de subdelegado de Polícia, conseguiu do então juiz de Direito da Comarca, Antônio de Castro Sincorá, um mandado de prisão contra Sérgio e Gasparino.

A “Tragédia do Tamanduá”, portanto, começou no dia 17 de março de 1893, na “Fazenda Pau de Espinho”, com o assassinato dos irmãos Freire (Sérgio e Gasparino). Eis aqui, possivelmente, o principal motivo da vingança de Calixto de Almeida Freire ou Calixtinho (o “Anjo da Morte”): a falta de punição ao verdadeiro culpado da morte de seus irmãos que todos sabiam ser Afonso Lopes Moitinho e que seu influente sogro, Coronel Domingos Ferraz de Araújo e demais políticos, o protegeram e o isentaram de qualquer culpa.

Afonso Lopes Moitinho era descendente do Capitão Bernardo Lopes Moitinho, natural de Portugal e um dos primeiros povoadores desta região que abriu a estrada para Canavieiras, passando pelo Verruga e povoado do Cachimbo (atual Capinarana). Bernardo era casado com Dona Joana Gonçalves Castelo (falecida em 1842), filha do Capitão Antônio Gonçalves Castelo e de Lourença Gonçalves da Costa, consequentemente neta de João Gonçalves da Costa. Bernardo era pai ainda de João Lopes Moitinho, conselheiro municipal em 1852, e José Lopes Moitinho, conselheiro municipal em 1844 e 1848 e juiz municipal e delegado de polícia em 1854. Era proprietário de quatro fazendas, entre elas o antigo latifúndio “Floresta”, situado no município de Itambé e banhado por um riacho com o nome de “Riacho do Bernardo” (em sua homenagem). Seu latifúndio tinha por sede a fazenda “Riacho da Onça”. Conforme inventário de 1859, encontrado no AFJM (Arquivo do Fórum João Mangabeira), seu Monte-Mor era de 18:728$648 (dezoito contos, setecentos e vinte e oito mil e seiscentos e quarenta e oito reis), sendo 800$000 (oitocentos mil reis) em dinheiro contado. Faleceu no dia 27 de abril de 1857.

Afonso Lopes Moitinho, o “Santo Lenho”

Tanto Afonso como Calixto (o outro protagonista da tragédia) eram de temperamentos agressivos e de indomável coragem, não medindo as consequências pelos seus atos.

Assassinados os dois filhos, Lourença, intrepidamente, foi à cidade implorar justiça às autoridades, conduzindo num animal os corpos dos dois filhos, como fardos de uma carga macabra. Por não ter sido ouvida em testemunho policial, deixou-os insepultos na porta do cemitério velho situado na Monsenhor Olímpio (altura do “Bigode de Pedral”) e dirigiu-se à casa do Coronel Joaquim Correia de Mello, dizendo: “Vocês mataram meus filhos, trouxe os seus cadáveres que estão lá no cemitério, se não quiser enterrá-los, coma-os”.

A esse tempo Calixtinho, como era mais conhecido o irmão de Sérgio e Gasparino, havia fugido para as Lavras Diamantinas, em Santa Isabel do Paraguaçu (atual Mucugê), onde conseguiu angariar a amizade de alguns jagunços que lhe seriam útil na vingança. Trouxe-os consigo a Conquista. Hospedou-os em Campo Formoso, na casa do Major Martiniano Soares Pereira, que também era seu parente. Conseguiu com ele homens e armas, formando com os seus um grupo muito forte de atacantes. Segundo o processo criminal que se abriu depois eram em número de 98. Caminhou com ele durante à noite e chegou, ao amanhecer, na Fazenda Tamanduá, atacando-a nas primeiras horas do dia 20 de outubro de 1895.

Nesse dia um serviçal foi apanhar água numa lagoa e viu e ouviu uma Cauã cantar num galho seco da Gameleira. Como é crença no sertão, de que a ave é agourenta, pensou logo que algo ruim estava por acontecer. Avisou para o coronel, que não acreditou. O Coronel Domingos Ferraz foi avisado, por diversas vezes por seus amigos, da intenção de Calixto atacar a sua fazenda, especialmente por ter trazido de outras paragens os perigosos “mocós” (matadores de aluguel) e de estar aliciando homens para fazer uma vingança. Mas o orgulhoso coronel não acreditava que Calixtinho era capaz de tamanha façanha. Dizem que ele riu e brincou: os ratos não podem com os gatos.

Após poucos dias que decorreram das festas durante uma semana dos casamentos de duas filhas do coronel Domingos com dois filhos de Joaquim Fernandes de Oliveira Primo, ainda reinava clima de festa na “Casa Grande”, e ninguém dava conta que o “anjo da morte”, viajando às caladas da noite, rondava por ali. Pegado de surpresa, mas com alguns jagunços às suas ordens, o fazendeiro resistiu durante todo o dia. Sem munição e cercada por todos os lados, a residência do coronel foi invadida. Não há como deter a fúria de Calixtinho e daqueles homens afeitos à luta e ao crime. Esse confronto perdurou da manhã do dia 18 até a tarde do dia 20, sendo que, nos dias seguintes, deu-se o saque e o incêndio da “Casa Grande”. “Calixto e seus companheiros aproximaram-se da Casa Grande, assaltaram-na ferozmente, e a tiros e golpes de faca e facão, assassinaram 22 pessoas que se encontravam dentro da casa, ficando o chão coberto de sangue, após gritos de angústia e de cenas horripilantes, como se o casarão se transformasse em verdadeiro inferno…”, relata o jornalista Aníbal Lopes Viana em seu livro “Revista Histórica de Conquista”, página 128.

Cemitério do Tamanduá: localizado na fazenda onde ocorreu a tragédia, atualmente no município de Belo Campo. Antigos moradores acreditam que algumas de suas paredes são da casa-grande do Coronel Domingos, sede da fazenda Tamanduá, destruída após o episódio

O local onde se situava a fazenda foi transformado em cemitério, e lá repousam ainda hoje os restos mortais da inditosa família. Depois da tragédia em que pereceram quase todos os membros de uma família, os atacantes saquearam o casarão levando tudo o que encontraram de valor: dinheiro, moeda de ouro e prata, joias, louças de macau e talheres de prata, o mesmo praticando em outras residências de parentes, amigos e agregados do Coronel Domingos Ferraz, que habitavam nos arredores, a chamada “Sebaça” (assalto e saque). Inclusive as fazendas do Coronel Gugé e de João Fernandes de Oliveira foram atacadas. Uma das vítimas, o Coronel Clemente Viana de Castro, que na época já estava bastante idoso, teve sua casa saqueada pelos mocós (matadores de aluguel) que retornavam para as Lavras. Além do saque, os bandidos mataram o velho coronel. Clemente Viana de Castro foi o fundador da família Viana neste município. Clemente Viana de Castro (Nenzinho Viana), antigo pecuarista e político do município de Caatiba (BA), era seu neto, bem como o dentista Isaías Viana de Andrade. Nenzinho Viana era filho de Francisco Viana de Castro (filho do “velho” Clemente Viana), comerciante, fazendeiro  e um dos fundadores do antigo distrito de “Matas de São Paulo” (hoje Caatiba). O primeiro médico a visitar Conquista, João Francisco Viana, filho de um rico proprietário de cerâmica de Aratuípe (BA), Jerônimo da Silva Viana, para debelar uma epidemia de “cólera-morbus” que atingiu a “Imperial Villa da Victoria” (hoje Vitória da Conquista) e “Santo Antônio da Barra” (hoje Condeúba) em 1854, era parente de Clemente Viana e pai do professor José Lopes Viana (pai do jornalista Aníbal Lopes Viana). O médico Francisco Viana se fixou em Condeúba (elevada à categoria de cidade com esta denominação no dia 25 de junho de 1892) e lá faleceu em janeiro de 1916, na sua fazenda “Pontal”.

Calixto de Almeida Freire, uma vez completada a sua vingança, dispersou os jagunços e homiziou-se no lugar Pedra Grande, Minas Gerais, onde foi perseguido e morto a mando dos parentes de Domingos Ferraz.

A luta entre as duas famílias de Conquista não terminou com a chacina da Fazenda Tamanduá. Prolongou-se por muito tempo, talvez por mais de 50 anos. Ora um, ora outro parente caía morto por uma bala adversária ou varado por um punhal assassino. Muitos que tiveram parte ativa na luta fugiram para outras terras.

Mas não fugiram da morte, porque jagunços eram incumbidos de descobri-los onde quer que escondessem. O Major Martiniano e os filhos, em fuga para as Lavras, foram perseguidos e sangrados em Anagé, no lugar chamado “Baixinha” numa casa velha hoje submersa pela barragem do Rio Gavião. Pena igual tiveram outros parentes do Coronel Domingos Ferraz em Tremedal, onde vivia a maior parte de sua família.

O inquérito sobre a “Tragédia do Tamanduá” foi o mais volumoso da história policial da região. O promotor que funcionou no processo arrolou e denunciou, em 24 de março de 1896, o total de 98 pessoas “como responsáveis pelo incêndio de diversas casas e assassinato de vinte e duas pessoas”. Tinha 1.283 folhas quando, em 11 de agosto de 1919, o Promotor de Justiça, Wenceslau de Souza Galo, requereu a prescrição dos crimes. Na edição do semanário “A Palavra” de 20 de setembro de 1919 foi publicada a sentença do Juiz de Direito Augusto Silvestre de Farias, acatando a prescrição requerida. Todos foram absolvidos. Coisas do mandonismo local.

Dizem os mais velhos que as peças dos processos estavam viciadas e propositadamente cheias de erros. O perito responsável pelo levantamento cadavérico da tragédia foi Terêncio Nunes Bahiense, irmão do Coronel Pompílio Nunes de Oliveira, apontado como o autor intelectual do massacre. Terêncio assumiu o cargo de Juiz de Paz em 1899. O próprio coronel fez parte do corpo de jurados. Isso explica porque ninguém foi condenado pelo envolvimento nas ações da “Fazenda Tamanduá”, sendo os crimes declarados prescritos por edital judicial em 1919. O absurdo maior é que, no decorrer das apurações dos inquéritos policiais, foi nomeado Delegado de Polícia justamente o padrinho e protetor de Calixtinho, o Coronel Pompílio Nunes, inimigo declarado do coronel Domingos Ferraz. Nem sequer ele foi envolvido no processo da “Tragédia do Tamanduá”.


6 respostas para “Tragédia do Tamanduá: uma luta entre famílias no final do século XIX em Belo Campo”

  1. Sandoval Ribeiro Flores disse:

    Caricioso Luis Fernandes, parabenizo por profunda e comovente pesquisa do episódio da Fazenda Tamanduá. Sou amigo e parceiro do Poeta e Cantador PAULO GABIRU, que compôs uma linda e inédita canção falando desse evento macabro. Se for do seu interesse poderá fazer uso do meu e-mail e te enviarei com muita alegria uma cópia {Tragédia em Trajetória}

  2. Márcia Ferraz disse:

    Sou descente das duas famílias…e até hoje não consigo entender o motivo real de tanta crueldade. Sinto-me mal só de pensar em passar perto do lugar em que aconteceu a chacina. Na verdade sinto uma certa angústia em saber que meus ancestrais foram protagonistas de uma guerra tenebrosa, por motivos certamente fúteis. Agiram como verdadeiros bárbaros insensíveis.

  3. Pedro Lopes disse:

    Nossa, tinha já ouvido falar de tal história por meus pais, e nunca tinha pesquisado. Estou surpreso pela brutalidade do ocorrido e também pelo que meu pai me disse, que eu tinha o sangue das famílias do “barulho dos tamanduás”, e agora eu vejo que tenho tanto da Lopes, como da Ferraz e também da Oliveira!

  4. editor disse:

    Caro Sandoval,
    Desculpe a demora, mas é que são tantos projetos que, às vezes, não consigo mantê-los atualizados. Mas, gostaria, sim, de uma cópia desta poesia. Pode enviá-la para o meu e-mail: lucfer999@gmail.com. Grato, Luís Fernandes, o editor.

  5. Companheiro, sou estudante de História, estou no 8o. semestre e escolhi como tema do meu TCC: “A historia da segurança pública no interior da Bahia, com foco em Brumado (1930/1937). E, para minha felicidade me deparei com o seu brilhante trabalho e percebi que poderia através de sua pessoa, sanar uma grande dificuldade que tenho encontrado para realizar o meu trabalho. Não encontro nenhuma fonte de pesquisa, pois, como pesquisador, você deve ter verificado que pouca coisa se registrava nos idos tempos do mandonismo dos políticos e coronéis da nossa região, ou mesmo do interior do estado. Gostaria, se possível entrar em contato com você. Meu celular é 9113-0172 (Tim). Necessito de sua ajuda.
    Saudações Fraternas.

  6. raquel disse:

    nossa minha mãe sempre me contou essa história desde pequena, ela também é Ferraz…que tragédia.

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