Jequié

Jequié

A “Chicago Baiana”

Depois de oito dias de fortes e intensas chuvas Jequié ficou completamente arrasada

Depois de oito dias de fortes e intensas chuvas Jequié ficou completamente arrasada

Em 12 de janeiro de 1914, depois de oito dias de chuva, as águas do Rio das Contas começaram a subir assustadoramente, dando início à grande catástrofe que destruiu cerca de mil casas. Depois da terrível enchente de 1914, que destruiu quase tudo em Jequié, a feira, o comércio e a cidade passaram a desenvolver-se em direção às partes mais altas. Após a enchente, Jequié ficou conhecida como a “Chicago Baiana”, pois essa cidade norte-americana também foi destruída, em 1871, e teve que recomeçar quase do zero. A diferença é que Jequié acabou em água e Chicago em fogo. Na reconstrução da cidade prevaleceu o ponto de vista da colônia italiana (dos Marotta, dos Grillo, dos Lamberti e de tantos outros trequineses), muito influente, visto que dominava o comércio. Foram eles que contrataram o engenheiro que elaborou o traçado da nova cidade. Era prefeito da cidade na época Urbano de Sousa Brito Gondim (em seu 2º mandato – 1913-1916). Urbano foi o primeiro prefeito de Jequié (1897-1900).

Praça da Bandeira e Rua Félix Gaspar, alagadas por uma das cheias dos rios das Contas e Jequiezinho (década de 40)

Praça da Bandeira e Rua Félix Gaspar, alagadas por uma das cheias dos rios das Contas e Jequiezinho (década de 40)

Para se ter ideia da extensão da tragédia, será bastante acrescentar que a atual Praça Rui Barbosa foi navegada por canoas. A população armava barracas de lona onde hoje se ergue a Rua Siqueira Campos. Em 26 de janeiro o Rio das Contas voltou ao seu leito normal, dando ensejo a que, no dia seguinte, o monsenhor Olímpio Ferreira, no alto da Boa Vista, celebrasse a missa campal que foi assistida por toda a população. Os poetas do povo enfeixaram num ABC os sofrimentos e os fatos pitorescos daqueles dias.

Quando as águas baixaram a população olhava, desiludida e desconsolada, as ruas alagadas. Praça da Bandeira na enchente de 1914

Quando as águas baixaram a população olhava, desiludida e desconsolada, as ruas alagadas. Praça da Bandeira na enchente de 1914

De qualquer maneira, passada a borrasca, era hora de reconstruir a cidade. Artur Pereira, Antero Cícero dos Santos e Antônio Amaral, dentre outros, queriam erguer uma nova cidade no local onde hoje situa o bairro de Jequiezinho, por apresentar topografia menos acidentada. Prevaleceu, no entanto, o ponto de vista da colônia italiana (já que dominava o comércio), que contratou o engenheiro Alberto Leal, delegado de terras, para elaborar o novo traçado. Jequié passou por um rejuvenescimento urbano, ganhando ruas e avenidas largas, ao lado de novas praças. De uma cidade linear, transformou-se numa urbis radial, deslocando-se para as encostas dos morros e margens das estradas que para ela convergiam.

Após a enchente de 1914 o engenheiro Alberto Leal traçou a nova cidade, com ruas amplas, praças espaçosas e largas avenidas, como a Rio Branco (década de 40)

Após a enchente de 1914 o engenheiro Alberto Leal traçou a nova cidade, com ruas amplas, praças espaçosas e largas avenidas, como a Rio Branco (década de 40)

O comércio deslocou-se da Praça Luís Viana para as ruas Sete de Setembro e João Mangabeira, o mesmo acontecendo com a feira, transferida para a Praça Rui Barbosa, até então um mangueiro da firma Grillo & Marota. Jequié renascia com avenidas mais largas e não mais de becos e vielas. O centro de Jequié era formado pelas praças Luís Viana (antiga Praça do Comércio) e João Borges (antiga Praça São João) e pelas ruas Lindolfo Rocha (antiga Rua da Vitória), Costa Brito (antiga Rua da Palha), Félix Gaspar (antiga Rua da Areia), Mota Coelho (antiga Rua da Esperança), Lélis Piedade, Sete de Setembro, João Mangabeira (antiga Rua do Frogodó) e Damião Vieira (antigo Beco do Cochicho). Mais afastados ficavam outros logradouros, dentre os quais a Rua 15 de Novembro (antiga Rua das Pedrinhas), Manuel Vitorino (antiga Pedregulho e depois Maracujá) e Rua Porto Alegre (antiga Rua do Boi). Com o crescimento da população, a cidade foi se expandindo pela periferia, abrindo espaço para futuros bairros, como Jequiezinho, Joaquim Romão, Campo do América, Alto do Cruzeiro, Santa Maria, São José, Cidade Nova, entre outros.

Juca, irmão de Adolpho e de Leonel Ribeiro. Contavam que na enchente de 14 ele saia de barco, distribuindo mantimentos aos desabrigados

Juca, irmão de Adolpho e de Leonel Ribeiro. Contavam que na enchente de 14 ele saia de barco, distribuindo mantimentos aos desabrigados

Apesar de praticamente destruída pela enchente de 14, a cidade ressurgiu mais bela e mais ampla, dando aos seus logradouros dimensões maiores das que ocorrem na maioria dos centros urbanos interioranos, com ruas estreitas e acanhadas. Jequié era, após 1914, uma cidade de avenidas e ruas largas e não mais uma comunidade de becos e vielas.


Jequié

Jequié foi um dos maiores destinos dos italianos na Bahia

O então Governador da Bahia, Lomanto Júnior, inaugurando a "Rua Jequié", em Trecchina, na década de 1960 (Lomanto é o segundo da direita para a esquerda)

O então Governador da Bahia, Lomanto Júnior, inaugurando a “Rua Jequié”, em Trecchina, na década de 1960 (Lomanto é o segundo da direita para a esquerda)

Jequié é a cidade baiana, depois de Itiruçu, que mais recebeu imigrantes italianos no estado da Bahia. Eles vieram principalmente de Trecchina (pronuncia-se “Tréquina”), na região da Basilicata. O pioneiro foi José Rotondano (nome de origem: Giuseppe), que viu em Jequié um grande potencial econômico, na época arraial de passagem para tropeiros. Rotondano mandou buscar na Itália Ângelo Grisi e Carlos Marotta, a fim de ajudá-lo na administração e crescimento do patrimônio. Não satisfeito, incentivou a vinda de outros patrícios para Jequié, onde ia indicando os pontos das zonas urbana e rural em que deveriam se estabelecer, conforme os pendores de cada um. Inocêncio Orrico e Ângelo Andrea, por exemplo, não hesitaram em transferir de Ubaíra para Jequié a razão comercial Inocêncio Orrico & Andrea. Alguns deles, como os Lomanto, Bartilotti e Scaldaferri vieram de Amargosa. Ali, nos tempos de prosperidade, nasceu a empresa Tude, Irmão e Cia., com filiais em uma dezena de cidades, inclusive Salvador e Jequié, com mais de cem empregados e uma representação em Paris. De Jaguaquara outros trequinenses se transferiram para Jequié. Com o tempo vieram mais conterrâneos seus, que foram de significativa importância para o crescimento da cidade. Tanto que na década de 1930 o italiano Vicente Grillo era um dos homens mais ricos da Bahia e Jequié era a quarta cidade do estado em economia. Entre as mais de 150 famílias italianas que se estabeleceram em Jequié, destacam-se: Aprile, Biondi, Caricchio, Colavolpe, Ferraro, Grillo, Grisi, Labanca, Leto, Liguori, Lomanto, Magnavita, Marotta, Orrico, Pesce, Rotondano, Sarno, Scaldaferri, Schettini etc. Até 1892 (dez anos após a chegada de Rotondano) já existiam em Jequié nada menos de 150 italianos, aos quais vieram se juntar às novas famílias egressas de outros centros urbanos.


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Futebol de Jequié em 1918

Atlético Clube de Jequié em 7 de setembro de 1918

Atlético Clube de Jequié em 7 de setembro de 1918

A prática do futebol registrava-se em Jequié ao menos um pouco antes de inaugurar a década de 1920. Nessa época, nos períodos de seca, trechos do rio das Contas transformavam-se em espaços improvisados para as primeiras partidas de futebol da região. Os mais famosos e prestigiados eram os jogos do “Mandão” e os do “Gereré”. Em 1918 já existia o “Atlético Clube de Jequié”, que jogava num antigo campo de futebol onde hoje é a Rodoviária e o clube da ACJ no Joaquim Romão.